Para você qual é o papel de um reitor?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Enquanto isso, no Caribe...

Matheus Maciel


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A Nossa Esquerda

Fernanda Ramos

Uma coisa é fato: a greve dos servidores federais da rede tecnológica, se analisada enquanto fenômeno inserido em um contexto sócio-econômico global dotado de extrema complexidade, é, em igual medida, extremamente complexa.

Foi consciente do peso e da responsabilidade de escrever sobre um assunto tão delicado quanto este, sentido na pele por alunos, pais e servidores de forma tão intensa, que busquei me preparar da melhor forma possível. E lá fui eu, que ainda tão pouca intimidade tenho com os grandes pensadores, no auge de minha humildade, sugar até a última gota do conteúdo de suas fontes. Oscilando entre o estudo das comédias novaiorquinas de Woody Allen e das poesias comunistas de Neruda, da dialética marxista e das análises contemporâneas de seu seguidor, Eric Hobsbawm, chegando inclusive a passar os olhos rapidamente pela psicologia sartriana e por alguns jornais de que sou fã de carteirinha, procuro formas de abordar a questão concisa e, ao mesmo tempo, amplamente. E eis que se acende a luz ao que, enquanto dedilho distraidamente o índice de “A minha esquerda”, de Edgar Morin, me deparo com o título “A reforma de pensamento”.

“A incapacidade de pensar os problemas locais e os problemas globais em conjunto”, diz ele, “constitui o aspecto intelectual da tragédia de nossa época”. Sob essa perspectiva, pode-se desenvolver uma ampla discussão sobre o papel da escola enquanto ampliadora – ou, em certos casos, limitadora – das possibilidades mentais e cognitivas de todos os atores envolvidos no processo formativo. Contudo, tentarei ir um pouco além, partindo deste princípio para analisar as possibilidades reais de uma greve de formato tradicional em meio a uma era marcada pela instantaneidade das informações, pelo individualismo extremo e pela falta de desprendimento para causas maiores.

Qualquer greve deflagrada por setores da educação se trata, primeiramente, de uma tentativa de assegurar a qualidade do ensino público. E se, teoricamente, a qualidade do ensino é medida justamente pela sua capacidade de dotar os alunos de um potencial de compreensão e análise cada vez maior, o objetivo final da greve nada mais é senão a ampliação das possibilidades mentais e cognitivas de todos os cidadãos brasileiros, bem como a democratização do entendimento dos fenômenos naturais, sociais e tecnológicos em toda a sua complexidade. Cria-se, portanto, um problema maior, que começa e termina em si mesmo: se a compreensão de fenômenos complexos e abrangentes por parte de uma sociedade norteada pela educação capitalista, que condiciona e estimula o domínio cada vez maior sobre conhecimentos cada vez menores, é limitada, como mobilizar os setores da sociedade para atos combativos, rompendo com suas próprias zonas de conforto em prol do bem comum e da reversão deste quadro?

Para este fim, faz-se necessário que alguns dispostos tomem a frente e as rédeas da organização do movimento. É claro que isso não exime em nada o resto da categoria da participação individual em todos os processos, não só importante, como intransferível, mas serve, minimamente, como estratégia para atrair cada vez mais servidores e alunos para planejarem e executarem ações em conjunto. O maior problema surge quando mesmo aqueles “dispostos” subutilizam seus próprios potenciais de liderança e acabam optando, por fim, por adotar as mesmas atitudes que condenam diariamente: criam desculpas cada vez mais elaboradas para afastar-se progressivamente da linha de frente do movimento, guardam para si seus pontos de vista mais radicais para evitar conflitos, e, apesar da própria inércia, munem-se de discursos repletos de sabedoria para combater ideologias e formas de fazer novas. Assim, como consequência de uma liderança desfalcada e intrinsecamente fraca, um movimento como este, de que se esperavam tantos feitos gloriosos, apesar de muito se anunciar, jamais chegou a ser, de fato.

Fazendo um balanço geral, a greve tem sido positiva ou negativa? Eu não saberia dizer. Por um lado, ela serve para tornar evidentes algumas das maiores fragilidades da categoria, que, além de demonstrar uma extrema falta de unidade através da debandada de vários campi à revelia das decisões nacionais, não consegue, de forma geral, agregar servidores para saírem de suas casas na luta pelos seus próprios direitos e, muito menos ainda, pôr os interesses nacionais acima dos interesses locais. Contudo, fica também muito claro o aspecto positivo desta greve, dotada de surpreendente caráter pedagógico. Talvez, ainda que os nossos líderes eleitos através de consensos velados tenham deixado a desejar em muitos aspectos, possamos crer que mesmo os erros de todo o processo tenham servido para um fim de fato importante: a consolidação de novas lideranças, mais combativas, comprometidas e, principalmente, capazes de aplicar toda a sua compreensão acerca de fenômenos complexos e multifacetados na realidade prática, ainda que isso muitas vezes signifique abrir mão do seu próprio conforto em nome de ideais que não só lhes pertencem, mas a toda a nação brasileira.

A Física do Movimento

Diogo Machado

Antes de mais nada, temos que entender o que é um movimento: segundo Isaac Newton, movimento está relacionado ao distanciamento entre dois corpos quando suas posições são diferentes em um mesmo intervalo de tempo, ou seja, um movimento só existe mediante a existência de pontos referenciais. Um exemplo fantástico é o “movimento” dos servidores federais. Se tomarmos como ponto referencial o sindicato (SINASEFE), veremos que os servidores – embora não a maioria – estão em movimento, porque, ao que tudo indica, suas “posições” são totalmente diferentes. Já se nos arriscarmos a uma análise do SINASEFE em relação ao governo, podemos dizer que um está em repouso em relação ao outro, pois as suas “posições” são idênticas no decurso do tempo – ou, na verdade, foram se igualando...

Podemos também verificar outro ponto importante: a velocidade. A velocidade é a grandeza física que mede quanto um corpo variou de posição em um determinado intervalo de tempo, fazendo-nos ter a noção de rapidez do movimento. A partir disso, conclui-se que o “movimento” da greve não está tão rápido, porque sua posição em relação ao SINASEFE (lembrando sempre do nosso ponto referencial) muda pouco em um intervalo muito grande de tempo. Faz-se necessária a alusão a mais um conceito físico, chamado centro de massa, a partir do qual compreendemos que toda a massa de um corpo estudado se concentra em um único ponto dele. Assim, vê-se que ainda que uns poucos servidores estejam engajados no movimento, o centro de massa deste “corpo” distancia-se lentamente de seu referencial. “Existem coisas mais importantes para o governo se preocupar” ou “greve é uma forma ultrapassada de reivindicação” são comentários que evidenciam bem o nível de união da categoria. Às vezes, o “corpo da greve” tenta até concentrar em si uma massa maior, convidando cada vez mais alunos para integrarem o movimento, mas, infelizmente, essa atitude não altera ou ameniza a falta de compromisso demonstrada justamente por aqueles que seriam mais beneficiados com o seu sucesso.

Podemos perceber com todos estes acontecimentos uma lei importantíssima de Newton: todo corpo em repouso ou movimento permanece em seu estado até que uma FORÇA resultante atue, a favor ou contrariamente, sobre ele. Onde está a força necessária para que esse movimento avance? O que está acontecendo? Newton foi ainda mais genial ao enxergar que, dessa forma, quando um corpo está em movimento e uma força atua contrariamente sobre ele, como, por exemplo, uma força de atrito, o corpo vai aos poucos entrando em estado de repouso. Não é exatamente isso o que tem acontecido com nosso movimento de greve?

Para acabar com o estado de inércia do governo, existem ainda muitas coisas a serem feitas, e cabe ao SINASEFE atrair, agregar e concentrar as massas, dando mais corpo ao movimento. Para isso, a comunicação é fundamental, pois apenas ela poderá elevar a velocidade do movimento. Em meio à era digital, não conseguir se organizar ou ao menos transmitir as informações necessárias é um vexame.


Por fim, trago apenas mais um conceito físico para auxiliar a nossa reflexão. A aceleração – embora, no nosso caso, talvez fosse mais apropriado referir-se a este fenômeno como desaceleração - é importantíssima para dar “vida” a um movimento. Quando há aceleração, significa que há força, mas para isso ela deve ser positiva, fazendo com que a força resultante seja a favor do movimento. Quando a aceleração é negativa significa que temos uma força de resistência maior que a força favorável a ele. Uma aceleração negativa, contrária, acarreta exatamente no que tem acontecido: o movimento vai, lentamente, se esvaziando.

Poderemos, agora, chegar a uma conclusão sobre qual é a força responsável pela estagnação do movimento: o famigerado atrito, que nada mais é senão a força de resistência que vem do próprio corpo e é contrária ao seu próprio movimento.
Prazer, SINASEFE.

“A riqueza de um país depende da educação de seu povo”*

Melissa Ohana Martins e Leonardo Fernandes

“Temos as condições e uma imensa necessidade de dar um grande salto na qualidade de nosso ensino”- frase pronunciada pela presidente Dilma Rousseff em uma de suas propagandas eleitorais.

Logo após sua vitória nas eleições de 2010, a atual presidenta resolve “cumprir” a sua palavra cortando 3,5 bilhões de reais do orçamento destinado à educação pública no Brasil. Em tempos em que se faz clara a necessidade do investimento na educação para gerar crescimento em um país, tal corte se mostra um desrespeito do governo com a população em geral, e ainda torna cômico o novo logotipo do Governo Federal que afirma que “país rico é país sem pobreza”. Devemos nos perguntar: em que medida a atitude de realizar cortes na área educacional diminuiria a pobreza no Brasil? Ou, então, o instrumento utilizado pelo governo para erradicar a pobreza seria o criado pelo ex-presidente Lula, o Bolsa Família? Acreditamos que não, pois este está longe de erradicar ou sequer minimizar a pobreza, servindo apenas para esconder aquilo que ninguém quer ver.

Em meio a essa onda de cortes orçamentários, servidores da rede federal de ensino, no dia 1° de agosto de 2011, deflagraram greve. Entre seus principais objetivos, estão o reajuste salarial de 14,67% e a medida que propõe a destinação de 10% do PIB para a educação pública. No atual contexto da luta sindical dos professores, nos surpreendemos de maneira positiva com o total apoio à greve por parte dos alunos do Instituto Federal Fluminense - campus Cabo Frio, que nos faz acreditar que os jovens brasileiros estão se tornando cada vez menos alienados e mais integrados com as situações sociais do país, fazendo jus ao nosso Hino Nacional quando diz: “verás que um filho teu não foge a luta”.

Porém, no final de setembro, fomos informados de que Guarus, Bom Jesus, Macaé e Itaperuna decidiram-se pelo término da greve em seus campi, embora em Campos dos Goytacazes, Cabo Frio e Quissamã ela tenha sido mantida. A decisão dos campi desertores fez com que nos perguntássemos: primeiro, teria a destinação de 10% do PIB para a educação pública, um dos principais pontos da pauta de reivindicações dos servidores, sido por eles esquecida no momento em que estes saíram da greve, acenando pela assinatura do acordo com o governo? Após tanto tempo de greve, por que estes campi decidiriam voltar às atividades ao terem conseguido apenas 4% de ajuste salarial, um “ganho”, assim mesmo, ainda não garantido, uma vez que só seria obtido se toda a categoria, a nível nacional, resolvesse sair? Seria justo com os outros campi e Institutos encerrar a greve a nível local sem se ter alcançado nem um terço das reivindicações propostas, deixando o resto do movimento ainda mais vulnerável?

Em meio a este cenário, no dia 7 de outubro fomos surpreendentemente informados de que o campus Centro do Instituto Federal Fluminense, localizado em Campos dos Goytacazes, resolveu também dar término à greve, acompanhando os demais campi. O movimento, que já estava frágil, se tornou ainda mais enfraquecido. Mobilizar a sociedade é primordial para o sucesso de uma greve, especialmente no caso de uma de tal porte, porém o mais provável é que a desmobilização, fenômeno decorrente desde o início deste movimento e que vem incomodando a todos nós, alunos, se agrave ainda mais com a saída do campus Centro. Torna-se claro que ela representa uma diminuição significativa da força do movimento grevista na região, este que já vinha fraco principalmente devido à falta de consenso entre os próprios campi do Instituto quanto aos assuntos relativos à greve.

No dia 10 de outubro, contrariando todas as expectativas, o campus Cabo Frio decide manter-se em greve mesmo sem o apoio do campus Centro. Concordamos que a causa da permanência, em si, é um sinônimo de luta, contudo a situação em que se encontra a greve tem sido sinônimo claro de decadência. Caberá ao campus Cabo Frio, único do estado do Rio de Janeiro a permanecer em greve, buscar condições para fortalecer um movimento que se mostra, até agora, deploravelmente fraco.

Ainda que soe clichê, a frase “a união faz a força” mostra-se primordial nesta situação. Afinal, os benefícios gerados por tamanhos esforços dos servidores de todo o Brasil beneficiarão a educação pública de maneira geral, e não apenas os alunos e servidores da rede federal de ensino técnico-profissionalizante. O que não podemos é nos contentar com propostas diminuídas como a dos 4% de ajuste salarial, verdadeira “peneira pra cobrir o sol”, que nos foi dada apenas para fim de desmobilização e não mudará em nada o status quo do país. Precisamos fazer com que, no mínimo, 10% do PIB seja destinado à educação pública, bandeira a ser levantada por todos aqueles que desejem mudanças efetivas nos rumos do Brasil. Queremos mudanças que verdadeiramente surtam efeito na melhoria e democratização da educação pública, e se tivermos que lutar cada vez mais para haver tais mudanças, sem dúvidas lutaremos.

A questão que fica em aberto é: o que conseguiremos sozinhos?

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*Autor desconhecido

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Mural

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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A História do Sr. Professor

  Matheus Maciel            

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A Marcha

Fernanda Ramos 


           Alheio ao desconhecimento de seu sentido, me pego repetindo a mesma velha frase que ecoa em minha mente de tempos em tempos sem que eu possa controlar: "Quem construiu a Tebas das Sete Portas?” 

Rafael da Costa Leal
           Então, contrapondo-se ao silêncio retumbante do asfalto gelado, elevam-se ao longe, quais fossem rufos de tambor, sons pesados de passos cadenciados. Era a grande marcha do futuro que se anunciava, diziam, querendo provocar. Traziam as antigas palavras empregadas em novos gestos, a antiga esperança estampada em novas cores e as antigas verdades baseadas em novas ordens. Traziam de volta às ruas, as vozes, e revelavam um futuro que na verdade era passado recente, inacabado e apagado; traziam de volta ao povo, o trabalho: as escolhas, escalas e o preço do tempo livre; traziam o inconsciente de volta à superfície, revelando pressupostos e escancarando subentendidos. Não sei se lhes acredito.

           Mas a verdade é que desde o surgimento daquela gente estranha de discursos inflamados, eu soube que nada nunca mais seria, ou poderia ser, o mesmo. Chamavam-me de companheiro, referiam-se a nossos encontros como movimento e doavam-me ferramentas que apelidavam de ideologias. Contavam-me sobre a existência milenar e opressora de um poder que deveria retornar às mãos do povo, um dia, de que me descubro parte integrante e fundamental. Instruem-me sobre uma dita conspiração daqueles a que, em sua presença, me refiro como “o grande capital”, mas que mentalmente ainda costumo chamar de “o preto e o branco” ou “a solidão”. E de repente acredito.

           Acredito nas cores e vozes daquela pequena nação de loucos sobre a qual ainda conheço tão pouco. Acredito na palavra dos grandes pensadores a que me apresentaram e de quem procuro sugar até a última gota do conteúdo rouco. E, acima de tudo, acredito na possibilidade de libertação deste povo pleno de cor e voz escondidas, e cujo silêncio tanto, tanto me oprimia.

           Quando é anunciada a iminência de sua partida, os loucos convidam-me a seguir viagem consigo. Contudo, ao olhar à minha volta e deparar-me com nada além de lixo, compreendo que meu papel é permanecer e contar aos outros tudo o que vi e ouvi sobre essa cidade-bicho. Quem sabe, assim, não traria de volta às ruas, as vozes, e aos poucos os nossos passos revelariam um futuro que na verdade era recente passado, inacabado e apagado? Poderíamos trazer de volta ao povo, o trabalho: as escolhas, escalas e o preço do tempo livre, e o inconsciente, de volta à superfície, revelando pressupostos e escancarando subentendidos. Permaneço, para compartilhar com os meus companheiros a ferramenta e o ideal, e também lhes contar sobre a existência milenar e opressora do poder, hoje nas mãos do “grande capital”, mas que haveria de retornar às mãos de um povo de que fomos e somos parte integrante, indispensável e fundamental. 

           Mas talvez o conhecimento mais importante que aquela gente me deixa e que aprenderei aos poucos a democratizar conste nos escritos cuja lembrança completa a minha memória por tanto tempo negligenciou. E é justamente para evitar que ele se perca novamente que repetimos todos os dias uns aos outros: “Quem construiu a Tebas de Sete Portas? Quem construiu a Tebas de Sete Portas? Quem construiu a Tebas de Sete Portas? Nos livros constam nomes de reis. Foram eles que carregaram as rochas?”

          Ensinaram-me, os loucos, a tatuar a resposta na mente e no coração daquele povo, e a cada dia que passa, acredito mais que a nossa marcha pode tremer o mundo todo.

          Sairemos de casa?