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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

A Marcha

Fernanda Ramos 


           Alheio ao desconhecimento de seu sentido, me pego repetindo a mesma velha frase que ecoa em minha mente de tempos em tempos sem que eu possa controlar: "Quem construiu a Tebas das Sete Portas?” 

Rafael da Costa Leal
           Então, contrapondo-se ao silêncio retumbante do asfalto gelado, elevam-se ao longe, quais fossem rufos de tambor, sons pesados de passos cadenciados. Era a grande marcha do futuro que se anunciava, diziam, querendo provocar. Traziam as antigas palavras empregadas em novos gestos, a antiga esperança estampada em novas cores e as antigas verdades baseadas em novas ordens. Traziam de volta às ruas, as vozes, e revelavam um futuro que na verdade era passado recente, inacabado e apagado; traziam de volta ao povo, o trabalho: as escolhas, escalas e o preço do tempo livre; traziam o inconsciente de volta à superfície, revelando pressupostos e escancarando subentendidos. Não sei se lhes acredito.

           Mas a verdade é que desde o surgimento daquela gente estranha de discursos inflamados, eu soube que nada nunca mais seria, ou poderia ser, o mesmo. Chamavam-me de companheiro, referiam-se a nossos encontros como movimento e doavam-me ferramentas que apelidavam de ideologias. Contavam-me sobre a existência milenar e opressora de um poder que deveria retornar às mãos do povo, um dia, de que me descubro parte integrante e fundamental. Instruem-me sobre uma dita conspiração daqueles a que, em sua presença, me refiro como “o grande capital”, mas que mentalmente ainda costumo chamar de “o preto e o branco” ou “a solidão”. E de repente acredito.

           Acredito nas cores e vozes daquela pequena nação de loucos sobre a qual ainda conheço tão pouco. Acredito na palavra dos grandes pensadores a que me apresentaram e de quem procuro sugar até a última gota do conteúdo rouco. E, acima de tudo, acredito na possibilidade de libertação deste povo pleno de cor e voz escondidas, e cujo silêncio tanto, tanto me oprimia.

           Quando é anunciada a iminência de sua partida, os loucos convidam-me a seguir viagem consigo. Contudo, ao olhar à minha volta e deparar-me com nada além de lixo, compreendo que meu papel é permanecer e contar aos outros tudo o que vi e ouvi sobre essa cidade-bicho. Quem sabe, assim, não traria de volta às ruas, as vozes, e aos poucos os nossos passos revelariam um futuro que na verdade era recente passado, inacabado e apagado? Poderíamos trazer de volta ao povo, o trabalho: as escolhas, escalas e o preço do tempo livre, e o inconsciente, de volta à superfície, revelando pressupostos e escancarando subentendidos. Permaneço, para compartilhar com os meus companheiros a ferramenta e o ideal, e também lhes contar sobre a existência milenar e opressora do poder, hoje nas mãos do “grande capital”, mas que haveria de retornar às mãos de um povo de que fomos e somos parte integrante, indispensável e fundamental. 

           Mas talvez o conhecimento mais importante que aquela gente me deixa e que aprenderei aos poucos a democratizar conste nos escritos cuja lembrança completa a minha memória por tanto tempo negligenciou. E é justamente para evitar que ele se perca novamente que repetimos todos os dias uns aos outros: “Quem construiu a Tebas de Sete Portas? Quem construiu a Tebas de Sete Portas? Quem construiu a Tebas de Sete Portas? Nos livros constam nomes de reis. Foram eles que carregaram as rochas?”

          Ensinaram-me, os loucos, a tatuar a resposta na mente e no coração daquele povo, e a cada dia que passa, acredito mais que a nossa marcha pode tremer o mundo todo.

          Sairemos de casa?

2 comentários:

Vinícius Santos disse...

Emocionante e emocionado...uma obra prima!

Como escrever captando sentimentos e realidades com tamanha alma?

abraços fraternos

Adriana disse...

There's no telling how far you can go! Meus cumprimentos, minha muito querida escritora predileta! Diante do vigor do seu texto, aposento o blog... Que outra alternativa me resta, rs?

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