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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O julgamento do bullying


Gustavo Dias



- O assassino morreu?
- Sim, se matou – respondeu com a voz carregada de frustração.
- Então se vire para achar um culpado! Sem alguém para culpar podemos causar questionamentos.
- Sim senhor, vamos trabalhar nisso.
O funcionário da Secretaria Estadual de Versões acabara de desligar o telefone e olhava para seus companheiros de trabalho com um muxoxo. Acabara de ligar para seus superiores e agora ele sabia que o dia seria longo a procura de algum culpado. Até que alguém exclamou:
- Eureka!
- Quem é Érika? Morreu no massacre?
- Digo, Bullying.
Assim foi feito, e o dia fora salvo na Secretaria Estadual de Versões.

Após o massacre em Realengo o veredicto soou quase uníssono: o assassino era desequilibrado e havia sofrido bullying na infância. Rapidamente, na velocidade de sinais de Internet e TV, uma palavra, e um culpado, ocuparam a casa e as mentes da sociedade brasileira: bullying. Faz-se necessária uma reflexão sobre o sentido deste fenômeno social moderno.

O ato de bullying é mais do que produzir Shylocks. É mais do que discriminar judeus, nordestinos, gays e pobres. Praticar bullying não é somente o escárnio, a exposição ou valorização de nossas diferenças naturais (físicas e psicológicas) e sociais. É, sobretudo, excluir e criar barreiras que dificultem, ou até impeçam a socialização em qualquer nível da vida de um indivíduo. O bullying é símbolo do desencaixe social.

Assim, não é preciso um pensamento sociológico ou filosófico profundo para percebermos: o bullying é produto social e não de um indivíduo. Portanto, a atribuição do massacre de Realengo ao bullying é superficial e falaciosa. Realengo é filho de uma sociedade que avança e não olha para trás. É fruto de um Sistema que cresce e produz, tal como nos mostra Bauman, “refugos humanos”. Culpar o bullying pelos acontecimentos daquela manhã de 7 de abril mascara e evita que encaremos de frente um problema que não é somente da Escola Municipal Tasso da Silveira, e sim de um sistema de relações sociais que mistifica e mercantiliza as diferenças.

Então, mais do que um réu, precisamos de uma filosofia cuja finalidade seja nos levar para além de Realengo, um questionamento que nos mostre e nos ensine a olhar para trás, de modo a encaramos cara a cara nossas tragédias pessoais anunciadas por práticas sociais que reproduzem desigualdade.

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