Gustavo
Dias
-
O assassino morreu?
-
Sim, se matou – respondeu com a voz carregada de frustração.
-
Então se vire para achar um culpado! Sem alguém para culpar podemos causar
questionamentos.
-
Sim senhor, vamos trabalhar nisso.
O
funcionário da Secretaria Estadual de Versões acabara de desligar o telefone e
olhava para seus companheiros de trabalho com um muxoxo. Acabara de ligar para
seus superiores e agora ele sabia que o dia seria longo a procura de algum
culpado. Até que alguém exclamou:
-
Eureka!
-
Quem é Érika? Morreu no massacre?
-
Digo, Bullying.
Assim
foi feito, e o dia fora salvo na Secretaria Estadual de Versões.
Após
o massacre em Realengo o veredicto soou quase uníssono: o assassino era
desequilibrado e havia sofrido bullying na infância. Rapidamente, na velocidade
de sinais de Internet e TV, uma palavra, e um culpado, ocuparam a casa e as
mentes da sociedade brasileira: bullying. Faz-se necessária uma reflexão sobre
o sentido deste fenômeno social moderno.
O
ato de bullying é mais do que produzir Shylocks. É mais do que discriminar
judeus, nordestinos, gays e pobres. Praticar bullying não é somente o escárnio,
a exposição ou valorização de nossas diferenças naturais (físicas e
psicológicas) e sociais. É, sobretudo, excluir e criar barreiras que dificultem,
ou até impeçam a socialização em qualquer nível da vida de um indivíduo. O
bullying é símbolo do desencaixe social.
Assim,
não é preciso um pensamento sociológico ou filosófico profundo para
percebermos: o bullying é produto social e não de um indivíduo. Portanto, a
atribuição do massacre de Realengo ao bullying é superficial e falaciosa.
Realengo é filho de uma sociedade que avança e não olha para trás. É fruto de
um Sistema que cresce e produz, tal como nos mostra Bauman, “refugos humanos”.
Culpar o bullying pelos acontecimentos daquela manhã de 7 de abril mascara e
evita que encaremos de frente um problema que não é somente da Escola Municipal
Tasso da Silveira, e sim de um sistema de relações sociais que mistifica e
mercantiliza as diferenças.
Então,
mais do que um réu, precisamos de uma filosofia cuja finalidade seja nos levar
para além de Realengo, um questionamento que nos mostre e nos ensine a olhar
para trás, de modo a encaramos cara a cara nossas tragédias pessoais anunciadas
por práticas sociais que reproduzem desigualdade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário