O curioso em Shakespeare é que, via de regra, seus vilões são criaturas
mais complexas, mais comoventes, mais eloquentes, mais verossímeis que seus
heróis. O herói de Shakespeare é incapaz de despertar nossa confiança. Não por faltar-lhe
virtude: ele exala virtude, é pura virtude, a própria encarnação da virtude. O
caso é que não compraríamos sequer uma rifa de quermesse de qualquer um de seus
heróis, simplesmente pela impossibilidade de acreditarmos na existência deles. O
herói de Shakespeare é uma farsa existencial. Só existe mesmo ali no papel. Não
conseguimos imaginar um Hamlet pegando ônibus lotado, ou um Otelo sofrendo de
disenteria, ou uma Julieta lavando banheiro. O herói de Shakespeare não é
humano: ele só finge que é. No fundo, trata-se de um patético arremedo humano. O
mesmo já não se passa com os seus vilões. O vilão shakespeariano é de uma existência
verídica, e de uma existência tão densa, tão corpórea, tão bem acabada que, por
muito pouco, ela não lhe confere RG, CPF e mau hálito. O vilão de Shakespeare sobrevive
para além da obra por que é conjurado. A peça acaba, e ele continua por aí, reivindicando
nossa atenção. É o que se dá, por exemplo, com Shylock, personagem da comédia
“O mercador de Veneza”.
Nela, Shylock é um judeu agiota a quem
Antônio, o mercador da peça, recorre para auxiliar um parente necessitado. Por
sua condição de judeu e agiota, Shylock é vítima das mais angustiantes
humilhações, alvo de escarradas e pontapés, inclusive de Antônio, que, na hora
da necessidade, vai se valer de seus serviços. No ato do empréstimo, Shylock vê
ali a oportunidade da vingança pelas humilhações pacientemente sofridas. E em
contrato, estipula que, uma vez vencido o prazo para o pagamento, em lugar da
quantia afiançada, receberia “uma libra de
vossa bela carne, que do corpo vos há de ser cortada onde bem me aprouver”.
Outro fato curioso em Shakespeare –
e talvez aí se encontre o toque do gênio
– é que o dramaturgo evoca, para a comédia, uma figura visceralmente trágica.
Shylock é uma figura trágica, que é arrastada por um destino impiedoso para um
fim igualmente trágico. Na peça, todos riem, todos amam, casam-se e se dão em
casamento, todos são felizes – menos Shylock. Ao odioso judeu está reservado o
vexame, a desonra, a execração pública, dos quais não há escapatória. O elemento
trágico aí se faz sentir na medida em que tomamos consciência de que Shylock
está condenado desde sempre, desde antes mesmo do início da peça. E não poderia
ser de outra maneira: Shylock era um judeu (o epíteto “agiota” é um mero
pretexto). Na época, final do século XVI, tanto na Inglaterra anglicana quanto
na Veneza católica, a condição de judeu reduzia-o a um pária, objeto de escárnio e intolerância de todos.
Certamente alguém discordará da
minha opinião (e, sinceramente,
espero que discordem; pois, opinião, é melhor quando cada um tem a sua, e sabe
defendê-la), mas não há, em toda obra de Shakespeare, fala mais pungente, mais
plangente, de dor tão viva e atual, que a resposta de Shylock a Salânio e
Salarino, “bons cristãos” amigos de Antônio. E é aí, na resposta de Shylock, que
se encontra mais uma grande sacada do bardo inglês: ela parece se dirigir aos
personagens, mas só parece; seu alvo, de fato, é a plateia, um auditório particularmente
formado de cristãos inclementes com os “infiéis”, e que pagaram para rir das
desgraças do judeu. A resposta de Shylock é a sua defesa feita perante seus algozes virtuais. Nesse ponto, o riso
zombeteiro vê-se forçado a dar lugar à reflexão.
Passo a reproduzir o diálogo a
seguir, para que cada um tire suas próprias conclusões. Um dos amigos de
Antônio pergunta: “Ora, tenho certeza de
que se ele não a resgatar no prazo certo, não haverá de tirar-lhe a carne, pois
não? Para que lhe serviria ela?”, ao que o judeu responde: “Para isca de peixe. Se não servir para
alimentar coisa alguma, servirá para alimentar minha vingança. Ele me humilhou,
impediu-me de ganhar meio milhão, riu de meus prejuízos, zombou de meus lucros,
escarneceu de minha nação, atravessou-se-me nos negócios, fez que meus amigos
se arrefecessem, encorajou meus inimigos. E tudo, por quê? Por eu ser judeu. Os
judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos,
inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as
armas, não estão sujeitos às mesmas doenças, não se curam com os mesmos
remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que
aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos
fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos
ofenderdes, não devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a vós,
teremos de ser iguais também a esse respeito. Se um judeu ofende a um cristão,
qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofende a um judeu, qual deve
ser a paciência deste, de acordo com o exemplo cristão? Ora, vingança. Hei de
por em prática a maldade que me ensinastes, sendo de censurar se eu não fizer
melhor do que a encomenda”.
Hoje já não há mais judeus como
Shylock. As montanhas de cadáveres do Holocausto, projetadas ad nauseam pelo cinema hollywoodiano; a
formação do Estado de Israel, referendado pelos EUA; e uma marinha, um exército
e uma aeronáutica, armados até os dentes, tornaram o mundo mais tolerante com o
povo judeu. Hoje o judeu é outro. E,
em todo canto, ainda há Shylocks humilhados, que sofrem, e gemem, e ganem,
pacientemente.
Vejamos aqui mesmo no Brasil. O
nosso judeu são vários (e que fique
claro que não me refiro mais aos “descendentes de Abraão”, mas aos perseguidos,
aos ultrajados, a todos marginalizados do mundo): temos atualmente o gay, por exemplo, que vez ou outra
aparece no noticiário estrangulado, esfaqueado, espancado até a morte por pura
intolerância; entre uma morte e outra, basta ao nosso preconceito fazer dele
alvo de piada, alvo do nosso inofensivo riso
zombeteiro. Mas há outros entre nós: o nordestino, o negro, o pobre e,
principalmente, o pobre são os nossos “judeus vitalícios”. Aqui me interessa
falar de um exemplar de Shylock dos dias atuais que resolveu resgatar sua promissória:
o assassino de Realengo.
Os jornais chamam Wellington Menezes de Oliveira de assassino, e estão absolutamente certos:
ele assassinou 12 adolescentes que nem ao menos o conheciam. Chamam-no de monstro, e o que fez foi de fato
monstruoso. Chamam de massacre o
ocorrido, e mesmo que tivesse havido apenas um inocente morto, já caberia o
título. Entre tantas palavras de impacto, que se sobrepõem ao indivíduo e ao
fato, poucas vezes se lembram de que esse assassino odioso, até bem pouco tempo,
era mais um menino pobre de mochila nas costas e uniforme escolar que morava no
subúrbio do Rio. E que até antes do massacre, era mais um jovem anônimo,
invisível, indigente entre tantos outros. Pensemos por um momento nesse jovem
anônimo, produto de uma sociedade excludente, que responsabiliza apenas o
indivíduo, isentando-se da sua parcela de culpa, quando este enlouquece. Mas,
agora, pensemos apenas no assassino, antes de ter se tornado assassino.
Pensemos apenas no jovem que havia antes.
Quem era ele antes do massacre? Quem
era ele antes que os sentimentos de morte se apoderassem de seu coração? Como
era sua vida em família? Como era sua vida na escola? Terá sido ele amado? Terá
sido ele sequer ouvido? Onde estavam todos quando era ele vítima de
humilhações, alvo de escarradas e pontapés na escola (o nosso “atualíssimo” bullying)? Hoje o chamam de assassino, de monstro, autor
de o que entra para a nossa história recente como “o massacre de Realengo”. E
com razão. Mas palavras de impacto não vão limpar das nossas mãos o sangue dos
inocentes (e aí incluo o Wellington anterior ao massacre, vítima de nossa
indiferença). Muito menos nos isentar da nossa responsabilidade social em
educar filhos, irmãos e vizinhos, em vez de relegar tal função exclusivamente aos
professores, também vítimas de tanta indiferença.
Na manhã em que Welington Menezes
de Oliveira se tornou assassino, fazia ele uma macabra “imitação de vida”.
Voltava a algum instante em seu passado para cobrar de toda a sociedade uma
dívida aberta: “uma libra de vossa bela
carne, que do corpo vos há de ser cortada onde bem me aprouver”.
Compensou-a com 12 vidas inocentes que encontrou no caminho, fora a sua própria.
Que nos baste essa lição. Que tenhamos, nós, pais, professores, amigos,
vizinhos, enfim, toda a sociedade, sabedoria e sensibilidade para conter essa
onda de ódio e intolerância que faz nascer os nossos Shylocks. Que nos ocupemos
de seus corações, antes que nos venham cara a cara dizer: “Hei de por em prática a maldade que me ensinastes, sendo de censurar
se eu não fizer melhor do que a encomenda”.

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