Nem carece de abrir o jornal. O lobo te
encara já da capa, sob as palavras gritadas: O MONSTRO.
Lobo andando de um lado pro outro, como
quem protege um tesouro. Lobo que, a cada corpo que deixa no chão estirado, se sente
mais dono de seu futuro do que no passado.
Lobo estirado no chão gelado, sua vida imitando as dos que olharam
direto nos olhos de seu 38 carregado, conscientes do fim. Ontem, filhote
assustado. Ontem, filhote derrotado. Hoje, Lobo assassino monstro maníaco psicótico
descontrolado – meras suposições daquele que não sabe o suficiente para
compreender o silêncio de um lobo silenciado. Lobo estirado no chão gelado leva
consigo a verdade dos movimentos de suas patas até o caixão.
Hesito ante a dualidade do odiar ao
bandido ou comover-me com a tristeza penosa do olhar por trás do mito, como se
houvesse sentido. Não vi a cara da morte, ou senti a dor da perda inesperada de
meus pequenos entes queridos, como não corri grave perigo justo no lugar que me
deveria servir de consolo, de abrigo. Mas também não sofri a vida toda, calada,
de males talvez piores do que qualquer dor física e certamente maiores do que
os transtornos causados pela solidão superficial que enche os bolsos dos
psicólogos burgueses dia após dia. Não dormi uma noite consciente de que, na
próxima, o leito em que me deitaria seria o mesmo de minha mãe e do próprio
Deus – ou quem quer que fosse me receber e talvez julgar pelo pecado que me
levou a adormecer nos braços seus. Não
planejei o meu próprio fim.
A quem culpar pela tragédia de Realengo?
Certamente não às crianças, indefesas – mortas, feridas ou ilesas.
Consensualmente, também não a um sistema reprodutor, em sua essência, de tantos
massacres diários, velados, ódio e violência. Mas então a um homem fraco,
medroso e, acima de tudo, transtornado, que a própria vida converteu em combatente
e assassino, pode? Pode, porque lobo não é gente como a gente e, assim, a gente
não o entende. Pode, porque a gente esquece que todo homem é feito dos mesmos instintos
paradoxais de vida e de morte, de amor e de destruição, e que a linha que
separa o doente do são é tão, tão tênue. Pode, porque a gente bem sabe o quanto
é mais fácil dormir à noite se distanciando da profundidade dos problemas de
que todos somos, em parte, tão vítimas quanto responsáveis, escolhendo nos
aconchegar na superfície dos fatos e criar sempre novos culpados. A quem
culpar? A quem desculpar?
Deste lado do jornal, deste lado da
tela, uma lágrima cai em luto pelos mortos de Realengo, mas não se esquece do lobo
mau que volta à forma original de homem rebento: psicótico equilibrado,
assassino solidário, frio, calculista e desesperado – bicho-homem que se
pretendia imortal ao ser morto e odiado, tanto pela favela, quanto pelo
asfalto.

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