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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Os monstros de Realengo

Fernanda Ramos



Nem carece de abrir o jornal. O lobo te encara já da capa, sob as palavras gritadas: O MONSTRO.

Lobo andando de um lado pro outro, como quem protege um tesouro. Lobo que, a cada corpo que deixa no chão estirado, se sente mais dono de seu futuro do que no passado.  Lobo estirado no chão gelado, sua vida imitando as dos que olharam direto nos olhos de seu 38 carregado, conscientes do fim. Ontem, filhote assustado. Ontem, filhote derrotado. Hoje, Lobo assassino monstro maníaco psicótico descontrolado – meras suposições daquele que não sabe o suficiente para compreender o silêncio de um lobo silenciado. Lobo estirado no chão gelado leva consigo a verdade dos movimentos de suas patas até o caixão.

Hesito ante a dualidade do odiar ao bandido ou comover-me com a tristeza penosa do olhar por trás do mito, como se houvesse sentido. Não vi a cara da morte, ou senti a dor da perda inesperada de meus pequenos entes queridos, como não corri grave perigo justo no lugar que me deveria servir de consolo, de abrigo. Mas também não sofri a vida toda, calada, de males talvez piores do que qualquer dor física e certamente maiores do que os transtornos causados pela solidão superficial que enche os bolsos dos psicólogos burgueses dia após dia. Não dormi uma noite consciente de que, na próxima, o leito em que me deitaria seria o mesmo de minha mãe e do próprio Deus – ou quem quer que fosse me receber e talvez julgar pelo pecado que me levou a adormecer nos braços seus.  Não planejei o meu próprio fim.

A quem culpar pela tragédia de Realengo? Certamente não às crianças, indefesas – mortas, feridas ou ilesas. Consensualmente, também não a um sistema reprodutor, em sua essência, de tantos massacres diários, velados, ódio e violência. Mas então a um homem fraco, medroso e, acima de tudo, transtornado, que a própria vida converteu em combatente e assassino, pode? Pode, porque lobo não é gente como a gente e, assim, a gente não o entende. Pode, porque a gente esquece que todo homem é feito dos mesmos instintos paradoxais de vida e de morte, de amor e de destruição, e que a linha que separa o doente do são é tão, tão tênue. Pode, porque a gente bem sabe o quanto é mais fácil dormir à noite se distanciando da profundidade dos problemas de que todos somos, em parte, tão vítimas quanto responsáveis, escolhendo nos aconchegar na superfície dos fatos e criar sempre novos culpados. A quem culpar? A quem desculpar?

Deste lado do jornal, deste lado da tela, uma lágrima cai em luto pelos mortos de Realengo, mas não se esquece do lobo mau que volta à forma original de homem rebento: psicótico equilibrado, assassino solidário, frio, calculista e desesperado – bicho-homem que se pretendia imortal ao ser morto e odiado, tanto pela favela, quanto pelo asfalto.

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