Diogo Machado
É impressionante como
o brasileiro parece ter inscrito em seu DNA, ou mesmo em sua alma, uma vontade,
uma afeição, uma voracidade para o futebol, que chega a fazer com que enxergue
no mais insignificante jogo de várzea uma Copa do Mundo. É tanta, a paixão, que
revivemos semanalmente nos gramados o Coliseo da antiga Roma, com seus
gladiadores, Cézares, escravos e até leões. E esse apetite por “pão e circo” é
que faz surgir entre nós, simples mortais, a cada quarta e domingo, novos
heróis e deuses. Mas não heróis e deuses apenas. Para esse assunto, é escalada
toda uma hierarquia celestial.
Há, por exemplo,
anjos. O primeiro deles foi Garrincha. Ele era conhecido como “o anjo das
pernas tortas”. Não era alto ou louro, e nem tinha olhos azuis, como é de
costume terem os anjos das catedrais. Mas era reconhecidamente anjo, sendo
assim chamado pelo “bem” que fazia em campo. Garrincha fazia o sobrenatural. Era
capaz de andar por sobre os “tropeços” da zaga adversária e, como que suspenso
por invisíveis asas, ziguezaguear entre os oponentes. Bastava uma simples
imposição de pés para operar prodígios e maravilhas.
Dos que testemunharam
o “mané” jogar, os mais fervorosos juram que sua verdadeira missão nunca foi
fazer gols. Segundo eles, o gol não passava de mera consequencia da virtude que
ele exalava. Declaram que a missão daquele anjo era mesmo entortar marcadores
com dribles impossíveis, iluminar companheiros com passes bem-aventurados, e
encher torcedores de graça. O gol e o milagre da multiplicação dos gols eram
meras consequencias de sua qualidade divina.
Tal epifania só é
possível para quem tem paixão pelo futebol. E nós brasileiros sabemos muito bem
o que é isso. Em dia de jogo, vemos multidões em peregrinação aos estádios, às
vezes somente para ver uma bola na trave. Isso é paixão.
Mas, por vezes,
também vacilamos na fé. Oscilamos entre devoção e apostasia, passando pela
incredulidade. Se, durante uma partida, praguejamos contra as cores do nosso
clube, e ele faz um gol, voltamos instantaneamente à mesma devoção anterior,
com um descaramento perdoável digno de um apaixonado. Isso que sentimos pelo
futebol é mesmo paixão. E essa paixão leva meninos, e também meninas, desde
cedo a uma espécie de autoflagelação necessária, como parte de um ritual
iniciático. Descalços, em disparada atrás da bola, eles chutam pedra, meio fio
e o próprio chão, deixando ali seu sangue. Há casos em que muitos dos iniciados
sacrificam o chamado “tampão do dedo”. No entanto, continuam jogando e querendo
fazer mais gols.
Assim, nascem os
timinhos nos bairros, e com eles rivalidades locais. Assim, emergem os técnicos
que há em cada um de nós! Ao fim de uma simples partida, temos a resposta pra
uma derrota: “você devia tocar mais a bola!”; “tínhamos que ter atacado pela
direita!”; “a culpa foi toda foi daquele ‘pereba’ no meu time!”. Da mesma
maneira, gritamos com a tevê como se “nossos” jogadores nos ouvissem: “na
direita, na direita!”; “olha o cara livre lá!”; “marca ele, marca ele!”. Assim,
somamos 180 milhões de técnicos, 180 milhões de apaixonados.
Nos lugares onde não
é permitido jogar futebol, damos o nosso um jeitinho, e fazemos de bola o que
estiver à mão. Quem nunca chutou uma latinha vazia largada no canto da rua e
gritou sozinho “gol!” ou então “foi, foi, foi, foi, foi ele!”. Vemos futebol em
tudo. Jogamos bola de papel, de meia, de pingue-pongue, e até mesmo com de
futebol. Para as traves, um par de chinelinhos já é o suficiente. E os juízes somos nós mesmos, assim ninguém é
expulso.
No ápice dessa
paixão, somos capazes até de fazer futebol sem usar os pés. E eis que chegamos
a uma nova modalidade de futebol, que já era velha na época de nossos pais: o dedobol.
Chamado de futebol de prego, futebol de dedo ou mesmo de dedobol, o fato é que
a briga é a mesma. Começa o jogo com duas pessoas e logo se encostam mais
outras e dizem a famosa frase “de fora é minha!”. Frase que para os desavisados
tem um tom pejorativo, mas que é respondida por qualquer marmanjo naturalmente
com a contrassenha: “é dez ou dois”.
As emoções são as
mesmas. Quem já presenciou uma partida de dedobol, viu a mesma empolgação.
Quando um dos jogadores faz um gol, o sentimento é o mesmo. Falta pouco pro
artilheiro correr para a galera e reproduzir uma das famosas comemorações. A
verdade é que, apesar baixíssima tecnologia que emprega, o dedobol é capaz de
gerar uma realidade virtual. De repente é possível sentir cheiro de grama,
ouvir o rumor da torcida, experimentar a vibração de uma partida de futebol. E
isso se dá a ponto de reforçarmos o nó da chuteira, suspendermos o meião, nos
persignar e entrarmos em campo rumo a vitória. Encontramos no dedobol o
simulacro de nossa paixão.
Assim, tudo isso nos faz
querer saber quem é o melhor nesse território. Um campeonato daria conta do
recado. Mas, como bons brasileiros, queremos mais. Tem que ser uma copa! Tem
que se chamar copa! Porque o prazer, o mérito, o glamour é maior ao dizer que
disputamos uma copa, que ganhamos uma copa. E como é de praxe, na semana da
nossa copa de dedobol, durante os jogos, muitos vão deixar suas mães, pais,
namoradas, namorados, e até esposas e maridos, para cumprir o dever patriótico
de jogar, ou pelo menos de torcer. Ali surgirão os heróis e deuses dessa
divertida modalidade. E então se efetivará ali o “milagre” do futebol, mesmo
que diante de um simples tabuleiro.
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