Fernanda Ramos
Uma coisa é fato: a greve dos servidores federais da rede tecnológica, se analisada enquanto fenômeno inserido em um contexto sócio-econômico global dotado de extrema complexidade, é, em igual medida, extremamente complexa.
Foi consciente do peso e da responsabilidade de escrever sobre um assunto tão delicado quanto este, sentido na pele por alunos, pais e servidores de forma tão intensa, que busquei me preparar da melhor forma possível. E lá fui eu, que ainda tão pouca intimidade tenho com os grandes pensadores, no auge de minha humildade, sugar até a última gota do conteúdo de suas fontes. Oscilando entre o estudo das comédias novaiorquinas de Woody Allen e das poesias comunistas de Neruda, da dialética marxista e das análises contemporâneas de seu seguidor, Eric Hobsbawm, chegando inclusive a passar os olhos rapidamente pela psicologia sartriana e por alguns jornais de que sou fã de carteirinha, procuro formas de abordar a questão concisa e, ao mesmo tempo, amplamente. E eis que se acende a luz ao que, enquanto dedilho distraidamente o índice de “A minha esquerda”, de Edgar Morin, me deparo com o título “A reforma de pensamento”.
“A incapacidade de pensar os problemas locais e os problemas globais em conjunto”, diz ele, “constitui o aspecto intelectual da tragédia de nossa época”. Sob essa perspectiva, pode-se desenvolver uma ampla discussão sobre o papel da escola enquanto ampliadora – ou, em certos casos, limitadora – das possibilidades mentais e cognitivas de todos os atores envolvidos no processo formativo. Contudo, tentarei ir um pouco além, partindo deste princípio para analisar as possibilidades reais de uma greve de formato tradicional em meio a uma era marcada pela instantaneidade das informações, pelo individualismo extremo e pela falta de desprendimento para causas maiores.
Qualquer greve deflagrada por setores da educação se trata, primeiramente, de uma tentativa de assegurar a qualidade do ensino público. E se, teoricamente, a qualidade do ensino é medida justamente pela sua capacidade de dotar os alunos de um potencial de compreensão e análise cada vez maior, o objetivo final da greve nada mais é senão a ampliação das possibilidades mentais e cognitivas de todos os cidadãos brasileiros, bem como a democratização do entendimento dos fenômenos naturais, sociais e tecnológicos em toda a sua complexidade. Cria-se, portanto, um problema maior, que começa e termina em si mesmo: se a compreensão de fenômenos complexos e abrangentes por parte de uma sociedade norteada pela educação capitalista, que condiciona e estimula o domínio cada vez maior sobre conhecimentos cada vez menores, é limitada, como mobilizar os setores da sociedade para atos combativos, rompendo com suas próprias zonas de conforto em prol do bem comum e da reversão deste quadro?
Para este fim, faz-se necessário que alguns dispostos tomem a frente e as rédeas da organização do movimento. É claro que isso não exime em nada o resto da categoria da participação individual em todos os processos, não só importante, como intransferível, mas serve, minimamente, como estratégia para atrair cada vez mais servidores e alunos para planejarem e executarem ações em conjunto. O maior problema surge quando mesmo aqueles “dispostos” subutilizam seus próprios potenciais de liderança e acabam optando, por fim, por adotar as mesmas atitudes que condenam diariamente: criam desculpas cada vez mais elaboradas para afastar-se progressivamente da linha de frente do movimento, guardam para si seus pontos de vista mais radicais para evitar conflitos, e, apesar da própria inércia, munem-se de discursos repletos de sabedoria para combater ideologias e formas de fazer novas. Assim, como consequência de uma liderança desfalcada e intrinsecamente fraca, um movimento como este, de que se esperavam tantos feitos gloriosos, apesar de muito se anunciar, jamais chegou a ser, de fato.
Fazendo um balanço geral, a greve tem sido positiva ou negativa? Eu não saberia dizer. Por um lado, ela serve para tornar evidentes algumas das maiores fragilidades da categoria, que, além de demonstrar uma extrema falta de unidade através da debandada de vários campi à revelia das decisões nacionais, não consegue, de forma geral, agregar servidores para saírem de suas casas na luta pelos seus próprios direitos e, muito menos ainda, pôr os interesses nacionais acima dos interesses locais. Contudo, fica também muito claro o aspecto positivo desta greve, dotada de surpreendente caráter pedagógico. Talvez, ainda que os nossos líderes eleitos através de consensos velados tenham deixado a desejar em muitos aspectos, possamos crer que mesmo os erros de todo o processo tenham servido para um fim de fato importante: a consolidação de novas lideranças, mais combativas, comprometidas e, principalmente, capazes de aplicar toda a sua compreensão acerca de fenômenos complexos e multifacetados na realidade prática, ainda que isso muitas vezes signifique abrir mão do seu próprio conforto em nome de ideais que não só lhes pertencem, mas a toda a nação brasileira.
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