Matheus
de Simone Maciel
Lembro-me muito bem
daquele dia. 11 de setembro: o dia em que o mundo parou para dividir com a
população estadunidense o desespero diante do ataque às Torres Gêmeas.
Nem em sonhos eu previria
aquele evento, ou imaginaria que, mesmo quase dez anos depois, ele ainda
trouxesse consequências tão profundas para o cenário político mundial. Eu
estava me preparando para ir à escola, como muitas crianças, quando de repente
a televisão começou a bombardear notícias sobre o atentado. Não precisava ser
criança para ver que elas aos poucos se tornavam uma história parecida com um
desenho de velho-oeste, em que o terrorista, o vilão, passou a ser caçado -
vivo ou morto.
Para terem noção do
quanto isso foi marcante para mim, fiquei por um bom tempo com um medo terrível
de topar por aí com o Osama Bin Laden e preocupado com a possibilidade de o
mesmo bater na porta da minha casa e matar todo mundo. Pode parecer paranóia,
mas foi justamente esse o objetivo que se teve em tecer toda aquela trama
maniqueísta: deixar o mundo apavorado com o “espetáculo”.
Anos se passaram, e Bin
Laden aos poucos foi esquecido. Mas a peça não acabara ainda, como não havia
aparecido nenhum herói que pusesse as mãos no vilão que apavorou e tirou o sono
de tantas criancinhas, principalmente aos Estados Unidos. Quem seria capaz de “salvar”
a vida dessas pessoas? Quem seria capaz de matar Osama Bin Laden e permitir que
a paz reinasse novamente, e que todos fossem felizes para sempre? Eis que surge
o nosso Grande Irmão salvador, aquele que precisou de um antagonista para
tornar-se o protagonista dessa novela. Barack Obama: o herói de uma batalha que
mal existiu.
Hoje, a notícia de sua
suposta morte é comemorada vigorosamente pelos estadunidenses, e comoção e alívio
se misturam de forma inexplicável. Enfim, a paz. Lamentável é ver tamanha
alienação em uma só sociedade. Eu não duvidaria se o povo festejasse da mesma
forma diante da divulgação, pela mídia, de que Osama foi levado de vassoura até
a Lua com Harry Potter e sua turma. O circo está montado e o espetáculo é para
nós, mas os palhaços de verdade não estão no palco, e sim na plateia.
O que é colocado em
questão não é se Bin Laden foi morto ou se ainda está vivo, mas a reação das
pessoas diante destas tantas hipérboles utilizadas para tratar o terrorista. De
criminoso, passou a fantasma, mais abstrato do que concreto. De tão
meticulosamente idealizado pela mídia, foi aos poucos ganhando carne, osso,
barba e turbante. A reação dos estadunidenses em relação à morte de Osama bin
Laden é o símbolo de uma sociedade que aceita qualquer cuspe midiático com valor
de realidade. Carecer das provas de sua morte é o de menos, o que realmente
preocupa é ver que a população aplaude, berra, chora e aprova a morte de um ser
humano, ainda que esta prometesse, no fim, trazer o sossego de muitos.
Talvez seja até um pouco
difícil diferenciar o herói do vilão, a própria língua se enrola ao pronunciar
os dois nomes, e os papéis, por um momento, se invertem. E se os papéis se
invertessem por mais que apenas um momento? As chances de Barack Obama
conseguir se reeleger são enormes, e se assim o fizer, será percebido pela
História como herói. Teremos, então, um exemplo claro de que heróis são aqueles
que, apesar de romperem com os laços da vida comum, nem sempre fazem o bem. Mas
não é desse tipo de herói, que, além de matar, se vangloria do feito, que o
mundo precisa.
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