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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Heróis e vilões



Matheus de Simone Maciel

Lembro-me muito bem daquele dia. 11 de setembro: o dia em que o mundo parou para dividir com a população estadunidense o desespero diante do ataque às Torres Gêmeas.

Nem em sonhos eu previria aquele evento, ou imaginaria que, mesmo quase dez anos depois, ele ainda trouxesse consequências tão profundas para o cenário político mundial. Eu estava me preparando para ir à escola, como muitas crianças, quando de repente a televisão começou a bombardear notícias sobre o atentado. Não precisava ser criança para ver que elas aos poucos se tornavam uma história parecida com um desenho de velho-oeste, em que o terrorista, o vilão, passou a ser caçado - vivo ou morto.

Para terem noção do quanto isso foi marcante para mim, fiquei por um bom tempo com um medo terrível de topar por aí com o Osama Bin Laden e preocupado com a possibilidade de o mesmo bater na porta da minha casa e matar todo mundo. Pode parecer paranóia, mas foi justamente esse o objetivo que se teve em tecer toda aquela trama maniqueísta: deixar o mundo apavorado com o “espetáculo”.

Anos se passaram, e Bin Laden aos poucos foi esquecido. Mas a peça não acabara ainda, como não havia aparecido nenhum herói que pusesse as mãos no vilão que apavorou e tirou o sono de tantas criancinhas, principalmente aos Estados Unidos. Quem seria capaz de “salvar” a vida dessas pessoas? Quem seria capaz de matar Osama Bin Laden e permitir que a paz reinasse novamente, e que todos fossem felizes para sempre? Eis que surge o nosso Grande Irmão salvador, aquele que precisou de um antagonista para tornar-se o protagonista dessa novela. Barack Obama: o herói de uma batalha que mal existiu.

Hoje, a notícia de sua suposta morte é comemorada vigorosamente pelos estadunidenses, e comoção e alívio se misturam de forma inexplicável. Enfim, a paz. Lamentável é ver tamanha alienação em uma só sociedade. Eu não duvidaria se o povo festejasse da mesma forma diante da divulgação, pela mídia, de que Osama foi levado de vassoura até a Lua com Harry Potter e sua turma. O circo está montado e o espetáculo é para nós, mas os palhaços de verdade não estão no palco, e sim na plateia.

O que é colocado em questão não é se Bin Laden foi morto ou se ainda está vivo, mas a reação das pessoas diante destas tantas hipérboles utilizadas para tratar o terrorista. De criminoso, passou a fantasma, mais abstrato do que concreto. De tão meticulosamente idealizado pela mídia, foi aos poucos ganhando carne, osso, barba e turbante. A reação dos estadunidenses em relação à morte de Osama bin Laden é o símbolo de uma sociedade que aceita qualquer cuspe midiático com valor de realidade. Carecer das provas de sua morte é o de menos, o que realmente preocupa é ver que a população aplaude, berra, chora e aprova a morte de um ser humano, ainda que esta prometesse, no fim, trazer o sossego de muitos.

Talvez seja até um pouco difícil diferenciar o herói do vilão, a própria língua se enrola ao pronunciar os dois nomes, e os papéis, por um momento, se invertem. E se os papéis se invertessem por mais que apenas um momento? As chances de Barack Obama conseguir se reeleger são enormes, e se assim o fizer, será percebido pela História como herói. Teremos, então, um exemplo claro de que heróis são aqueles que, apesar de romperem com os laços da vida comum, nem sempre fazem o bem. Mas não é desse tipo de herói, que, além de matar, se vangloria do feito, que o mundo precisa.

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