Diogo
Machado
Como
quem ensaca batatas através de suaves batidas no chão, os motoristas
“ensacadores” com suas “suaves” arrancadas acomodam quanto mais batatas (opa,
quis dizer passageiros) couberem no ônibus. E o serviço tem sido bem feito,
porque na saída as pessoas estão tão bem ensacadas, digo, acomodadas, que quase
não conseguem sair. Estão tão bem espremidas, tão bem apertadas, que mais
parecem casos singulares de gêmeos siameses, só que com mais de oitenta
pessoas. Não dá mais pra saber onde começa um e termina o outro.
É
assim que vamos, imprensados, apertados, acomodados no fundo dos ônibus que nos
levam aos nossos compromissos diários. Alguns dizem não haver conforto algum,
mas na verdade temos o privilégio de viajar com o mais belo fundo musical, uma
mistura inusitada de funk com baião, de gospel com secular, do novo com o velho
estilo. Essa mistura serve uma espécie de terapia: se o seu trabalho não te
estressa, ande de ônibus. É quase uma guerra religiosa, de um lado é “senta,
senta, senta” e, do outro, “gloria, gloria, aleluia”. A tudo isso, adicione
também a gentileza fenomenal de motoristas e cobradores.
Em
meio a essa tremenda demonstração da educação brasileira, um caso especial me
salta aos olhos: as disparidades no trato com estudantes da rede pública. Por que
é feita tanta distinção entre os alunos da rede federal (mesmo que estes não
estejam enquadrados na lei de “gratuidade”) e os demais estudantes? Ainda que a
gratuidade seja legalmente destinada aos alunos das redes municipal e estadual
de educação, o que acontece em Cabo Frio e adjacências é que os alunos federais
entram em qualquer ônibus, com ou sem cobrador. Já os meninos e meninas com
uniformes do estado têm de se sujeitar à boa vontade dos fieis escudeiros das
empresas de transporte local.
Um
dia desses, presenciei um exemplo emblemático da questão. O motorista do ônibus
em que eu estava mandou um estudante de colégio estadual descer porque estava
com a camisa sobre os ombros. Esta atitude seria até louvável se, ao chegado ao
Centrinho, o motorista não tivesse esperado uma aluna do Instituto Federal
vestir calmamente o seu uniforme para passar pela roleta. Tem havido uma
inversão de valores. Aqueles que tem os direitos assegurados por lei os tem perdido
por acordos entre governos locais e empresas de transporte. Esse disparate vai
contaminando as pessoas de tal forma que começam a achar-se no direito de fazer
levantar das poltronas os alunos com uniformes estaduais, e deixar sentados,
sem sequer incomodá-los, os federais.
Não
sou contra a “gratuidade” dos alunos do IFF, mas a pergunta é: Quem paga essa
conta? Não é, ela, paga com os mesmos impostos cobrados a todos? Paciencia tem
limites. Não estamos discutindo a educação em si. Se, de uma forma ou de outra,
a passagem dos alunos é paga, eles não tem o direito de ir sentados? Ainda
assim, chega sempre aquela mão no ombro com os tapinhas leves, porém ardidos, a
ironia nos olhos, o sorriso sarcástico no rosto e a famosa (e decepcionante)
frase: “Levanta aí pra eu sentar!”
Nenhum comentário:
Postar um comentário