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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Os alunos daqui e os alunos de lá


Diogo Machado

Como quem ensaca batatas através de suaves batidas no chão, os motoristas “ensacadores” com suas “suaves” arrancadas acomodam quanto mais batatas (opa, quis dizer passageiros) couberem no ônibus. E o serviço tem sido bem feito, porque na saída as pessoas estão tão bem ensacadas, digo, acomodadas, que quase não conseguem sair. Estão tão bem espremidas, tão bem apertadas, que mais parecem casos singulares de gêmeos siameses, só que com mais de oitenta pessoas. Não dá mais pra saber onde começa um e termina o outro.

É assim que vamos, imprensados, apertados, acomodados no fundo dos ônibus que nos levam aos nossos compromissos diários. Alguns dizem não haver conforto algum, mas na verdade temos o privilégio de viajar com o mais belo fundo musical, uma mistura inusitada de funk com baião, de gospel com secular, do novo com o velho estilo. Essa mistura serve uma espécie de terapia: se o seu trabalho não te estressa, ande de ônibus. É quase uma guerra religiosa, de um lado é “senta, senta, senta” e, do outro, “gloria, gloria, aleluia”. A tudo isso, adicione também a gentileza fenomenal de motoristas e cobradores.

Em meio a essa tremenda demonstração da educação brasileira, um caso especial me salta aos olhos: as disparidades no trato com estudantes da rede pública. Por que é feita tanta distinção entre os alunos da rede federal (mesmo que estes não estejam enquadrados na lei de “gratuidade”) e os demais estudantes? Ainda que a gratuidade seja legalmente destinada aos alunos das redes municipal e estadual de educação, o que acontece em Cabo Frio e adjacências é que os alunos federais entram em qualquer ônibus, com ou sem cobrador. Já os meninos e meninas com uniformes do estado têm de se sujeitar à boa vontade dos fieis escudeiros das empresas de transporte local.

Um dia desses, presenciei um exemplo emblemático da questão. O motorista do ônibus em que eu estava mandou um estudante de colégio estadual descer porque estava com a camisa sobre os ombros. Esta atitude seria até louvável se, ao chegado ao Centrinho, o motorista não tivesse esperado uma aluna do Instituto Federal vestir calmamente o seu uniforme para passar pela roleta. Tem havido uma inversão de valores. Aqueles que tem os direitos assegurados por lei os tem perdido por acordos entre governos locais e empresas de transporte. Esse disparate vai contaminando as pessoas de tal forma que começam a achar-se no direito de fazer levantar das poltronas os alunos com uniformes estaduais, e deixar sentados, sem sequer incomodá-los, os federais.

Não sou contra a “gratuidade” dos alunos do IFF, mas a pergunta é: Quem paga essa conta? Não é, ela, paga com os mesmos impostos cobrados a todos? Paciencia tem limites. Não estamos discutindo a educação em si. Se, de uma forma ou de outra, a passagem dos alunos é paga, eles não tem o direito de ir sentados? Ainda assim, chega sempre aquela mão no ombro com os tapinhas leves, porém ardidos, a ironia nos olhos, o sorriso sarcástico no rosto e a famosa (e decepcionante) frase: “Levanta aí pra eu sentar!”

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