Muito se falou sobre os possíveis motivos que levaram Wellington a fazer o que fez: se era louco, esquizofrênico, perturbado, monstro ou apenas revoltado. O que pouco se abordou foi a relação entre a escola, enquanto instituição, e o acontecido. Se toda instituição tem um papel na sociedade, no caso da escola ele é extremamente importante, já que é o primeiro contato do ser humano com as diferenças. Mas será que a escola tem capacidade, hoje, de exercer o seu verdadeiro papel sociológico?
Os professores Vinícius Santos e Adriana Peixoto,
ambos de História, foram convidados para discorrer sobre o assunto. Confira
abaixo a entrevista:
Folha Dobrada: Até que ponto a
responsabilidade do ocorrido é da sociedade?
Adriana Peixoto: Esse não é um crime
que possa ser classificado como mais um nas estatísticas da violência que
assola uma sociedade na qual faltam, ou são ineficientes, políticas públicas
voltadas para a segurança. É um crime que nos chama à reflexão e nos incomoda
mais porque expõe, de forma contundente, a nossa responsabilidade enquanto
componentes de uma sociedade adoecida. É de responsabilidade da sociedade,
visto que é fruto dos meios de comunicação de massa que contribuem para
disseminar a ideia de que é aceitável a convivência com produtos da indústria
cultural que naturalizam/banalizam a violência. É de responsabilidade da
sociedade que estimula ou é complacente com a intolerância, com a indiferença
em relação àqueles que considera inferiores, diferentes, “os outros”, os que
não se encaixam nos padrões disseminados pelas mídias em geral: os feios, os
“loucos”, os pobres, os “que não deram certo”.
FD: Hoje,
a escola enquanto instituição está preparada para conseguir amenizar a exclusão
distribuída gratuitamente pelo sistema em que vivemos?
Vinicius
Santos: Eu não acredito que a escola esteja preparada,
porque ela não tem como dar conta sozinha dos problemas sociais. Isso seria uma
visão romântica e ingênua. A exclusão nos seus mais diversos não podem ser
enfrentados apenas pela escola, pois a escola não é uma entidade pura pairando
acima da sociedade. Ela é atravessada pelas mesmas contradições que estão
presentes na sociedade em geral. Mesmo os problemas que podem ser considerados
pedagógicos não podem ser isolados de seus contextos. A escola é um dos pilares
para enfrentar os problemas sociais (entre eles, a exclusão) e não o único. Ela
não pode assumir sozinha um peso tão grande. A escola pode contribuir com mais
substantividade para superar os problemas sociais, a exclusão, o desemprego e
tantos outros, mas precisa estar integrada a um projeto civilizatório mais
amplo. É só lembramos vários exemplos em que a escola esteve a serviço da barbárie:
o nazismo é emblemático. A gente pode ter uma sociedade altamente escolarizada,
mas a serviço do que há de pior. Então, voltando à sua pergunta, é não. Sozinha
nunca. Ela poderá estar preparada na medida em que fizer parte da construção de
um modelo de sociedade alternativo e menos excludente.
FD: Mesmo sendo tão
famigerado, ainda não se vê um eficiente combate ao “Bullying”, logo outros
problemas menos “midiáticos”, e talvez mais importantes, acabam caindo no
ostracismo. Qual deve ser o verdadeiro papel sociológico da escola perante
essas deficiências? E quais são as consequências geradas por essa negligência?
VS: Uma delas é
exatamente descortinar a epocalidade que faz alguns conceitos ou palavras
entrarem na moda. Nos anos 80 o século passado eu ouvia muito a expressão
“neurótico de guerra” e o símbolo maior estereotipado era o Rambo. Porque
ninguém mais anda classificando as pessoas como neuróticos de guerra? A
psicanálise em seu surgimento tinha como objeto fundamental a histeria
feminina? Porque hoje a esse não é um problema fundamental para esse campo?
Quase ninguém mais ouve falar em pessoas histéricas. Cada época produz seus
“problemas psíquicos”. Isto é, o papel da sociologia e de outras disciplinas
co-irmãs como a Psicologia Social, a História é compreender a historicidade e
os contextos geradores de problemas como “bullying”, que não é novo, a palavra
é que é recente e foi criada para dar conta de um problema social que ganhou
projeção nos últimos anos. Bullling, hiperatividade, psicopatas e neurose são
exemplos de vocábulos que vão ganhando popularidade para moldar o entendimento
das produções individuais e das relações. O problema é que em grande parte dos
casos se abusa dessas expressões que vão se tornando expressões curingas para
explicar tudo. E como toda palavra que é usada para explicar tudo, acaba por
não explicar muita coisa e perde, muitas vezes, a riqueza dos conteúdos mais
substantivos que elas poderiam expressar (claro que entendo que nenhuma palavra
tem um sentido unívoco. Mas utilizar uma expressão que descreve uma patologia
para tudo é sempre problemática). Eu me referi a tantos exemplos para mostrar
que mesmo a psique humana (algo sempre pensado como extremamente individual)
precisa de uma ancoragem social para ser compreendida. Com efeito, a sociologia
é uma disciplina privilegiada (não a única) para refletir sobre o Bullling
(entres outros problemas sociais) em seus contornos e os contextos econômicos,
sociais, políticos, históricos e culturais.
FD: Wellington deixa
bem claro em seus vídeos, que sua escolha pela escola foi pra conseguir atingir
toda uma sociedade excludente. Hoje, com uma escola que não supre a necessidade
de “acolhimento” que amenizaria essa exclusão, ainda existe alguma medida pra
que a sociedade pare de parir mais
Wellingtons?
AP: Novos “Wellingtons”?
Lamentavelmente é possível... O papel de evitá-los, entretanto, não cabe
somente à instituição escola, por mais força que ela possa ter na estrutura
social. Se a escola assume devidamente o seu papel, pode contribuir para
minimizar a inércia e a complacência que nos cerca. Mas o problema é mais
complexo, na medida em que é preciso lutar contra uma estrutura que alcançou o
“status” de intocável, de modelo ideal e inquestionável. E aí, a
responsabilidade tem que ser devidamente dividida com outras instituições que
parecem passar
incólumes, refratárias a toda e qualquer crítica.
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