Para você qual é o papel de um reitor?

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Em cena, a escola

Matheus Ferreira


Muito se falou sobre os possíveis motivos que levaram Wellington a fazer o que fez: se era louco, esquizofrênico, perturbado, monstro ou apenas revoltado. O que pouco se abordou foi a relação entre a escola, enquanto instituição, e o acontecido. Se toda instituição tem um papel na sociedade, no caso da escola ele é extremamente importante, já que é o primeiro contato do ser humano com as diferenças. Mas será que a escola tem capacidade, hoje, de exercer o seu verdadeiro papel sociológico?
Os professores Vinícius Santos e Adriana Peixoto, ambos de História, foram convidados para discorrer sobre o assunto. Confira abaixo a entrevista:

Folha Dobrada: Até que ponto a responsabilidade do ocorrido é da sociedade?

Adriana Peixoto: Esse não é um crime que possa ser classificado como mais um nas estatísticas da violência que assola uma sociedade na qual faltam, ou são ineficientes, políticas públicas voltadas para a segurança. É um crime que nos chama à reflexão e nos incomoda mais porque expõe, de forma contundente, a nossa responsabilidade enquanto componentes de uma sociedade adoecida. É de responsabilidade da sociedade, visto que é fruto dos meios de comunicação de massa que contribuem para disseminar a ideia de que é aceitável a convivência com produtos da indústria cultural que naturalizam/banalizam a violência. É de responsabilidade da sociedade que estimula ou é complacente com a intolerância, com a indiferença em relação àqueles que considera inferiores, diferentes, “os outros”, os que não se encaixam nos padrões disseminados pelas mídias em geral: os feios, os “loucos”, os pobres, os “que não deram certo”.

FD: Hoje, a escola enquanto instituição está preparada para conseguir amenizar a exclusão distribuída gratuitamente pelo sistema em que vivemos?

Vinicius Santos: Eu não acredito que a escola esteja preparada, porque ela não tem como dar conta sozinha dos problemas sociais. Isso seria uma visão romântica e ingênua. A exclusão nos seus mais diversos não podem ser enfrentados apenas pela escola, pois a escola não é uma entidade pura pairando acima da sociedade. Ela é atravessada pelas mesmas contradições que estão presentes na sociedade em geral. Mesmo os problemas que podem ser considerados pedagógicos não podem ser isolados de seus contextos. A escola é um dos pilares para enfrentar os problemas sociais (entre eles, a exclusão) e não o único. Ela não pode assumir sozinha um peso tão grande. A escola pode contribuir com mais substantividade para superar os problemas sociais, a exclusão, o desemprego e tantos outros, mas precisa estar integrada a um projeto civilizatório mais amplo. É só lembramos vários exemplos em que a escola esteve a serviço da barbárie: o nazismo é emblemático. A gente pode ter uma sociedade altamente escolarizada, mas a serviço do que há de pior. Então, voltando à sua pergunta, é não. Sozinha nunca. Ela poderá estar preparada na medida em que fizer parte da construção de um modelo de sociedade alternativo e menos excludente.

FD: Mesmo sendo tão famigerado, ainda não se vê um eficiente combate ao “Bullying”, logo outros problemas menos “midiáticos”, e talvez mais importantes, acabam caindo no ostracismo. Qual deve ser o verdadeiro papel sociológico da escola perante essas deficiências? E quais são as consequências geradas por essa negligência?

VS: Uma delas é exatamente descortinar a epocalidade que faz alguns conceitos ou palavras entrarem na moda. Nos anos 80 o século passado eu ouvia muito a expressão “neurótico de guerra” e o símbolo maior estereotipado era o Rambo. Porque ninguém mais anda classificando as pessoas como neuróticos de guerra? A psicanálise em seu surgimento tinha como objeto fundamental a histeria feminina? Porque hoje a esse não é um problema fundamental para esse campo? Quase ninguém mais ouve falar em pessoas histéricas. Cada época produz seus “problemas psíquicos”. Isto é, o papel da sociologia e de outras disciplinas co-irmãs como a Psicologia Social, a História é compreender a historicidade e os contextos geradores de problemas como “bullying”, que não é novo, a palavra é que é recente e foi criada para dar conta de um problema social que ganhou projeção nos últimos anos. Bullling, hiperatividade, psicopatas e neurose são exemplos de vocábulos que vão ganhando popularidade para moldar o entendimento das produções individuais e das relações. O problema é que em grande parte dos casos se abusa dessas expressões que vão se tornando expressões curingas para explicar tudo. E como toda palavra que é usada para explicar tudo, acaba por não explicar muita coisa e perde, muitas vezes, a riqueza dos conteúdos mais substantivos que elas poderiam expressar (claro que entendo que nenhuma palavra tem um sentido unívoco. Mas utilizar uma expressão que descreve uma patologia para tudo é sempre problemática). Eu me referi a tantos exemplos para mostrar que mesmo a psique humana (algo sempre pensado como extremamente individual) precisa de uma ancoragem social para ser compreendida. Com efeito, a sociologia é uma disciplina privilegiada (não a única) para refletir sobre o Bullling (entres outros problemas sociais) em seus contornos e os contextos econômicos, sociais, políticos, históricos e culturais.

FD: Wellington deixa bem claro em seus vídeos, que sua escolha pela escola foi pra conseguir atingir toda uma sociedade excludente. Hoje, com uma escola que não supre a necessidade de “acolhimento” que amenizaria essa exclusão, ainda existe alguma medida pra que a sociedade pare de parir mais Wellingtons?

AP: Novos “Wellingtons”? Lamentavelmente é possível... O papel de evitá-los, entretanto, não cabe somente à instituição escola, por mais força que ela possa ter na estrutura social. Se a escola assume devidamente o seu papel, pode contribuir para minimizar a inércia e a complacência que nos cerca. Mas o problema é mais complexo, na medida em que é preciso lutar contra uma estrutura que alcançou o “status” de intocável, de modelo ideal e inquestionável. E aí, a responsabilidade tem que ser devidamente dividida com outras instituições que parecem passar incólumes, refratárias a toda e qualquer crítica.
                                                                                             

Nenhum comentário:

Postar um comentário