Marcio
Roberto Motta Mendonça
É muito comum ouvirmos de pais e educadores que
nossa juventude não tem mais ideais e está perdida. Será?
Esse tipo de discurso tem favorecido cada vez mais
uma espécie de descompromisso nosso com os jovens. Os jovens de hoje, como os
de outrora, são imensamente generosos, criativos e heróicos, assim como capazes
de morrer pelas causas em que acreditam. Vemos isso todos os dias nas manchetes
dos jornais. Mais recentemente, tivemos o trágico caso de Realengo, em que o
jovem Wellington, dentro de sua concepção doentia de vingança contra os abusos
sofridos na infância, ceifou a vida de 11 inocentes crianças que nada tinham a
ver com seu problema.
Ou será que tinham? Será que elas também não sofriam
o tal “bullying”? Será que, como aconteceu com o jovem Wellington, tais ações
não foram negligenciadas ou colocadas como "coisa menor" pelos
professores e pedagogos da escola Tasso da Silveira, assim como pela comunidade
escolar? Será que tal negligência não seria a causa-raiz da violência do jovem
Wellington e de tantos outros jovens em nossa sociedade? Fica em aberto o
debate.
A educação escolar tem sido uma das grandes mentoras
da criação de desafios para a juventude, desafios esses que significam
oportunidades para a apreensão do belo e da harmonia, e que ajudam a dar
significado a suas vidas, a construir projetos de futuro digno. Mas é fato que
ela tem falhado, e muito, no desempenho de sua tão importante tarefa. Para
encaminhar melhor esta questão, é necessário entender que escola é essa, e como
se pode interferir em suas propostas. Analisarmos o currículo da escola é o
melhor caminho para propor mudanças.
Hoje em dia, está difícil continuar trabalhando com
a velha estrutura curricular. Mesmo escolas como as técnicas, que vieram
preencher uma importante lacuna no sistema educacional, se valem da mesma
estrutura caduca, e fazem do processo de ensino-aprendizagem verdadeiras
prisões da curiosidade, da inventividade, da participação e da vontade de
aprender.
A Lei nº 9.394/96, Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Brasileira, abre caminho para inovações. Não obriga nem garante, mas
facilita as práticas inovadoras dos educadores mais preocupados com o alto
nível de descolamento entre os currículos e a realidade dos alunos e os
problemas de nosso país, do mundo e da própria existência humana.
Precisamos mudar a forma de fazer educação.
Precisamos inovar. Precisamos de gente corajosa, disposta a defender suas
idéias e criativa, para estudar soluções e buscar parcerias – gente que
pretenda obter mais prazer do trabalho e ter mais envolvimento com o seu fazer,
certamente obtendo, assim, maior qualidade nos resultados.
A utilização das Novas Tecnologias de Informação e
Comunicação (NTIC’s) aplicadas à educação tem funcionado como instrumento para
a inovação e, em muitos casos, com muito sucesso. Imersos no atual paradigma do
aprendizado, de um lado estão os alunos, pertencentes a uma geração consumidora
dos recursos digitais, e, do outro, professores de uma geração “pré-WEB 2.0”
que ainda está embarcando sua utilização. Essa relação, vista sob a perspectiva
do trato com as tecnologias pelos diferentes grupos explicitados, dá margem a
uma possível classificação que separa os entes entre nativos e migrantes
digitais.
Os nativos digitais são aqueles que já nasceram na era digital e
vivem neste meio. São os usuários de blog, integrantes de comunidades de
relacionamento, consumidores de mídia digital, produtores de vídeos e outros tantos
materiais que preenchem a WEB, tendo, ainda, este hábito como parte de sua
relação com o ambiente. Podemos concluir, pois, que a “dialética digital” já
foi apropriada pelos integrantes deste grupo como parte funcional de seu
desenvolvimento, diferente daqueles tidos como migrantes digitais. A migração
digital, termo recém-apropriado para o ambiente da internet, refere-se àquele
fenômeno que atinge as pessoas que passam a interagir com os novos re-cursos
2.0. A justificativa para este rótulo, longe de ser pejorativo, é reconhecer ao
público a sua própria capacidade de quebrar o paradigma anterior a WEB 2.0,
utilizando de todas as suas vantagens e desvantagens de forma mais consciente
quanto possível.
Cabe agora observar o desenrolar destes dois grupos,
com sua nova missão de “aprender a aprender“ e como as expectativas dos alunos
serão atendidas pelos docentes. Estarão, os professores, habilitados a
trabalhar com os multirrecursos? Implicarão, eles, em uma substantiva melhora
na troca de conhecimentos e valores durante o processo de ensino-aprendizagem?
E mais, em que medida as novas tecnologias podem ajudar a disseminar e, quem
sabe, até mesmo diluir as ondas de ódio a que se resume o viver em sociedade
contemporâneo? Seriam elas capazes de amenizar os danos anteriores e
posteriores a episódios como o de Realengo?
A inovação tecnológica frequentemente embute
possibilidades de se fazer algo realmente novo, e novas tecnologias exigem
novos modelos de fazer aquilo que confortavelmente já se vinha fazendo. Por vezes,
elas representam ameaças, mas também podem ser vistas como oportunidades novas.
Está lançado o desafio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário